Ralph Fiennes domina em um épico que sabe crescer em atmosfera.

O Retorno é um filme que sabe jogar tanto na grandiosidade dos planos abertos quanto na proximidade dos olhares. Há um cuidado visual constante: a fotografia e as locações não estão ali apenas para embelezar a narrativa, mas para dar corpo a uma trama que respira atmosfera épica. Essa construção ajuda a aproximar o espectador da tensão e do silêncio entre os personagens, reforçando que a jornada de Ulisses não é só física, mas também emocional.
O épico A Odisseia surge como fio condutor, mas o longa não se prende a reproduções literais. Pelo contrário, busca outros pontos de enfoque, trazendo novas camadas de leitura ao mito. Isso permite que a narrativa cresça com naturalidade, especialmente pelo jogo de não reconhecimento de Ulisses em seu retorno. Essa escolha não só alimenta a dramaticidade, mas também reforça o impacto de cenas emblemáticas, como a do arco, realizada com precisão e um senso de grandeza raro.
Ralph Fiennes está no centro desse projeto com uma entrega magnânima. Sua transformação física impressiona, mas o que sustenta de verdade é a capacidade de equilibrar força, determinação e fragilidade em uma mesma figura. Ele constrói um Ulisses que impõe respeito não apenas pela presença, mas pelo silêncio, pelos olhares e pelo peso de sua história. É um papel que o coloca em destaque justamente porque ele consegue transmitir camadas, sem precisar recorrer a exageros.

O elenco secundário também merece atenção, em especial Marwan Kenzari, que se revela fundamental para a engrenagem da trama. Seu trabalho dá densidade às conexões que orbitam Ulisses, mostrando como cada movimento tem consequências. Esse cuidado de dar espaço a outros personagens sustenta a narrativa e ajuda a expandir a dimensão épica da obra.
Mas nem tudo funciona como poderia. Juliette Binoche, no papel de Penélope, tem pouco tempo de tela e raros diálogos, o que enfraquece a presença de uma das figuras mais importantes da história. A rainha, que poderia ser o eixo de tensão e espera, acaba reduzida, quase como um detalhe. Além disso, o filme escorrega na ação: as coreografias de luta não têm a mesma intensidade que o resto da narrativa carrega, e o uso do sangue, que poderia reforçar a brutalidade do épico, soa tímido, pouco crível e sem o impacto esperado.
O Retorno é grandioso no que importa: sabe construir imagens fortes, valorizar atuações e dar nova vida a um mito milenar. Mesmo com falhas pontuais, a experiência se sustenta pelo equilíbrio entre tradição e modernidade, pela força de um protagonista marcante e pela capacidade de criar uma atmosfera que prende do início ao fim.
Nota: 4/5
Contato: naoparecemaseserio@gmail.com
Youtube: Canal do Youtube – Não Parece Mas É Sério
Facebook: facebook.com/naoparecemaseserio
Instagram: @naoparecemaseserio