Cinema, Crítica de Filme

A Praia do Fim do Mundo | Crítica

Quando o mar avança, resta saber o que ainda pode ser preservado.

O cinema de Petrus Cariry sempre teve um olhar muito particular para os espaços e os silêncios, e em A Praia do Fim do Mundo isso se intensifica numa escolha estética forte: fotografia em preto e branco e tela menor, como se a imagem quisesse estreitar o mundo dos personagens. Essa opção, que poderia soar restritiva, abre espaço para o drama humano pulsar, revelando tanto a brutalidade da natureza quanto a fragilidade da vida.

O filme acompanha a casa de uma família que é lentamente engolida pela invasão do mar, metáfora que se desdobra em várias direções: o problema ambiental que não recebe atenção do poder público, a impotência diante do avanço das águas, e a resistência de quem se recusa a abandonar o lugar que simboliza memória e pertencimento. A matriarca, vivida por Marcélia Cartaxo, é a guardiã desse espaço. Ela tem uma vida simples, mas profundamente enraizada naquela construção. Sua ligação é tão visceral que mesmo a iminência da destruição não a convence a sair.

O contraponto vem da filha, interpretada por Larissa Góes, que representa um olhar de fora, mais racional, ao trazer detalhes pessoais, ambientais e legais da casa. É através dela que o filme equilibra a intensidade da mãe: se de um lado há o apego simbólico, do outro surge a análise prática, e também um drama pessoal tratado com delicadeza, mas sem abrir mão da firmeza. Esse embate não é feito em gritos ou exageros, mas em diálogos longos, intensos, que prendem pelo peso das palavras e pela precisão dos cortes, sempre mantendo a dinâmica viva.

O cenário da casa é um personagem à parte. Cada cômodo carrega sua própria narrativa, da piscina tomada pela água salgada ao sótão repleto de lembranças da família. Esses espaços não são apenas pano de fundo: são símbolos do desgaste, da memória, daquilo que se quer preservar e do que já foi irremediavelmente corroído. Mesmo familiares que não aparecem diretamente na trama principal surgem citados em diálogos carregados de significados, ampliando a rede simbólica que o filme constrói.

As atuações de Marcélia e Larissa dão conta dessa densidade, especialmente quando estão juntas em cena. O filme sabe criar situações novas a cada ato com sutileza, sem pressa, mas sempre adicionando algo ao drama central. Em muitos momentos, Cariry aposta apenas nas expressões e nos olhares, as “encaradas” de Marcélia para a câmera são pura linguagem, um modo de comunicar sentimentos sem precisar de palavras. É cinema que entende a força da imagem.

A Praia do Fim do Mundo é, no fim, sobre resistência: de uma casa, de uma família, de uma memória, e até de uma forma de cinema que não se dobra às fórmulas fáceis. Um retrato poético e devastador de como o mar pode levar paredes e histórias, mas não arranca o apego de quem acredita que um lar é mais do que apenas paredes de concreto.

Nota: 4/5

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