Cinema, Crítica de Filme

Rosário | Crítica

Entre drama e horror, uma protagonista que sustenta tudo nas sombras.

Em seu primeiro longa, o diretor Felipe Vargas aposta em um terror íntimo, quase doméstico, para contar uma história de herança, perda e maldições familiares. Rosário não busca sustos fáceis nem exageros sobrenaturais; prefere construir sua atmosfera pela densidade dos espaços e pela presença da protagonista, vivida por Emeraude Toubia, que segura a narrativa com força e entrega uma personagem multifacetada.

Toubia interpreta uma mulher de sucesso que precisa lidar com a morte da avó em meio a uma nevasca. O ponto de partida parece simples, mas logo se revela mais complexo: ao retornar à casa da família, a protagonista descobre que há segredos enterrados naquelas paredes e que o sobrenatural está intimamente ligado à sua herança. O peso da trama recai sobre ela, e a atriz consegue equilibrar diferentes registros, o drama íntimo da perda, o terror que se aproxima lentamente e as exigências físicas de um papel que pede entrega corporal constante.

O filme se apoia muito na construção de atmosfera. A fotografia é um destaque: a iluminação reduzida (facilitada pela falta de energia causada pela nevasca) e os contrastes de sombra criam a sensação de escuridão permanente, de um mundo à beira de se fechar sobre a protagonista. A casa da avó, riquíssima em detalhes, funciona quase como outro personagem, cada objeto, cada canto mal iluminado carrega uma ameaça implícita. Conforme a protagonista avança em sua investigação, o espectador avança junto, descobrindo aos poucos as respostas, sem atalhos ou revelações artificiais.

Essa escolha de manter o terror “pé no chão” dá autenticidade ao longa. Em vez de recorrer ao excesso, Rosário utiliza maquiagem discreta, mas bem  utilizada, muitas vezes escondida em luzes e sombras, e efeitos práticos combinados a visuais bem dosados. A tensão nasce justamente do que não se mostra por completo, fazendo da sugestão uma ferramenta narrativa poderosa. É um terror que prefere a imersão lenta ao choque imediato.

Porém, a solidez da protagonista acaba ofuscando os coadjuvantes. O arco familiar, promissor no início, perde força quando o roteiro decide focar quase exclusivamente em Rosário e seu embate com os elementos sobrenaturais. Personagens como o pai, vivido por José Zúñiga, e o vizinho, interpretado por David Dastmalchian, têm pouco tempo de tela e não chegam a se desenvolver plenamente, servindo mais como apoios pontuais do que como peças essenciais da história.

Esse desequilíbrio pode frustrar quem esperava um drama familiar mais robusto, mas não compromete a proposta central: um estudo de personagem dentro de um terror psicológico atmosférico. Vargas, em sua estreia, demonstra segurança ao apostar na contenção, preferindo construir um clima inquietante a recorrer a truques previsíveis.No fim, Rosário é uma experiência que prende não pelo espetáculo, mas pelo desconforto. Um filme que entende a força de sua protagonista, aproveita o peso simbólico dos espaços e encontra na sutileza um caminho sólido para o terror contemporâneo.

Nota: 3/5

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