Um longa que ouve mais do que fala, e diz muito assim mesmo.

O primeiro longa de Adriano Guimarães, Nada, é daqueles filmes que confiam no tempo, no espaço e na pausa. Filmado com planos abertos, diálogos longos e uma narrativa que se recusa a apressar seus personagens, o filme mergulha na rotina, na memória e nas lacunas do reencontro entre duas irmãs. É cinema que observa mais do que conduz.
Acompanhamos Ana (vivida por Bel Kowarick), uma artista plástica que retorna à fazenda onde cresceu para reencontrar a irmã, Tereza (Denise Stutz), depois de muitos anos. O que poderia virar um grande drama, aqui vira um registro quase documental de silêncio, convivência contida e ausência de pressa. Mesmo quando Tereza não pede ajuda, ela deixa claro que quer companhia e o filme respeita essa contradição. O uso direto da câmera (com Ana contando sua história sem cortes bruscos, mostrando rotina e diálogos centrados) reforça o tom íntimo e cru da narrativa.
A fotografia de André Carvalheira caminha no sentido oposto dos planos abertos da direção, apostando em enquadramentos mais fechados e angulados que criam uma sensação constante de confinamento, quase como se Ana estivesse o tempo todo sendo vigiada por sua própria memória.

Há também uma delicadeza na forma como o filme retrata os vínculos familiares, com seus não ditos, suas sutilezas e suas feridas que não se curam com uma visita ou um abraço. Nada é sobre o que não se diz, e isso funciona na maior parte do tempo.
No entanto, a entrada da figura da antena, um elemento mais alegórico e simbólico, muda bastante a lógica do que vinha sendo construído. O que era um filme “pé no chão” sobre relações reais e silêncios compartilhados, vira algo especulativo e metafórico. Essa transição não é exatamente mal feita, mas quebra a coerência narrativa que até então parecia a proposta central. Para alguns, pode enriquecer a leitura. Para outros, é um desvio que tira força do que o filme vinha lapidando tão bem.
Ainda assim, o longa é um exercício de escuta, tempo e presença. Um filme que convida à contemplação e à observação, mesmo que, no fim, decida tomar um rumo mais abstrato.
Nota: 3/5
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