A solitude de um médico e os silêncios que o cercam

Deserto de Akin é daqueles filmes que optam por não gritar, mas que mesmo assim ecoam fundo. Com direção sensível de Bernard Lessa, o longa acompanha o cotidiano do médico cubano Akin (vivido de forma contida e eficaz por Reynier Morales) em uma cidadezinha esquecida no mapa, mas rica em humanidade e contradições. A câmera acompanha de perto a rotina do protagonista, as consultas, os silêncios, os gestos repetidos, as caminhadas pelo pó da cidade, tudo num ritmo que respeita o tempo dos lugares e das pessoas.
A vida que Akin leva é simples, quase contemplativa. O foco não está no que ele faz de extraordinário, mas no que ele faz de comum: ouvir pacientes, visitar casas, conversar pouco e observar muito. A relação que ele desenvolve com a personagem de Ana Flavia Cavalcanti é um dos pontos altos da narrativa. Nada de paixão avassaladora, aqui o afeto é construído aos poucos, entre silêncios, caronas e cuidados sutis. Juntos, os dois constroem um retrato delicado de um casal em formação, que se reconhece na solidão do outro.
Há algo quase documental na forma como o filme retrata o ambiente: o calor seco, os espaços amplos e vazios, os rostos marcados de quem vive com pouco. A estética é minimalista, quase árida, e casa perfeitamente com o tom reflexivo da obra. No entanto, nesse mesmo espaço, havia margem para algo mais. Akin é parte do programa Mais Médicos, e isso poderia abrir portas para uma discussão política mais profunda, sobre migração, saúde pública, identidade e pertencimento. Mas o roteiro prefere se esquivar disso, focado inteiramente no íntimo, no homem, e não no símbolo.

Esse foco funciona dentro da proposta estética do filme, mas também limita um pouco seu alcance dramático. A trama carece de uma virada mais clara entre os atos, ou de um arco mais definido que levasse Akin a algum tipo de transformação perceptível. Ainda assim, essa escolha narrativa faz sentido dentro da lógica proposta pelo roteiro: o “deserto” aqui não é só geográfico, é emocional. É sobre estar longe de casa, longe de si, e talvez perto de algo novo, mesmo que incerto.
Deserto de Akin não é um filme que quer explicar muito. Ele quer que você observe, respire fundo e perceba que os encontros importam mais do que os discursos. E nesse aspecto, ele acerta com precisão.
Nota: 2/5
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