Uma lente inquieta sobre o anonimato digital e os justiceiros que se escondem atrás da tela
Baseado em um caso real ocorrido no Japão, Cloud – Nuvem de Vingança é o mais recente mergulho sombrio de Kiyoshi Kurosawa nos abismos da condição humana. Conhecido por sua habilidade em retratar o terror psicológico e o vazio moderno, o diretor entrega aqui um suspense denso, silencioso e incômodo. No centro da trama, Tomokazu Miura interpreta com precisão o protagonista, um homem comum cujas escolhas aparentemente inofensivas na internet o empurram para o centro de uma espiral cada vez mais violenta.
Kurosawa não tem pressa em revelar as engrenagens da história. E isso funciona. A construção é lenta, mas eficaz: vamos conhecendo aos poucos o passado, os hábitos e as frustrações do personagem principal, ao mesmo tempo em que o filme monta com rigor o cenário social onde a trama se desenvolve
A grande força do filme está justamente nesse desconforto. A internet, nesse contexto, deixa de ser uma rede de conexão e vira uma teia de julgamentos, ódio e impulsos travestidos de moral. O protagonista acaba criando inimigos nas suas vendas de produtos de baixa qualidade e preço alto, e eles resolvem buscar vingança pessoalmente.
Há algo especialmente perturbador na maneira como o filme nos obriga a acompanhar os pequenos passos rumo ao extremismo. As ações do grupo de justiceiros não parecem absurdas à primeira vista. Ele não julga os personagens, mas deixa o espectador enfrentar seus próprios dilemas éticos, conforme a história avança.
Além disso, o filme propõe uma reflexão nada confortável sobre a ilusão de controle nas redes. O site de vendas, inicialmente ferramenta, vira sua armadilha, munido por egos destruídos e desastres financeiros de seus ‘clientes’. A transformação dele é tão gradual quanto inquietante.

O diretor também acerta ao usar a trilha sonora com parcimônia e inteligência: os momentos de tensão não são barulhentos, são sufocantes. A câmera muitas vezes se mantém fixa, testemunhando o que há de mais banal e, por isso mesmo, mais perturbador.
Cloud não escapa ileso de suas escolhas narrativas. Apesar da atmosfera bem construída, algumas relações secundárias carecem de desenvolvimento. Figuras importantes para o desfecho surgem e desaparecem sem aprofundamento, deixando lacunas que prejudicam o impacto emocional. Além disso, o final opta por uma ruptura estilística e narrativa pode soar abrupto, até desconexo, principalmente quando comparado ao realismo minucioso do resto do longa.
Mesmo com essas falhas, há um mérito raro na forma como Kurosawa evita sensacionalismo. Cloud nunca tenta transformar seu enredo em espetáculo. A violência existe, sempre como consequência de atos.
Ainda assim, o filme se sustenta pela força do tema, pela direção segura de Kurosawa e pela atuação discreta, porém poderosa, de Miura. Cloud – Nuvem de Vingança é um thriller que incomoda mais pelo que não diz do que pelo que mostra.
Nota: 2,5/5
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