Entre julgamentos externos e conflitos internos, uma mulher caminha na corda bamba da culpa e da redenção.

Dá pra contar nos dedos os filmes que conseguem mergulhar tão fundo na psique de uma personagem sem perder a mão no drama. Stella: Vítima e Culpada entra nesse seleto grupo com louvor. Dirigido com uma firmeza quase cirúrgica, o longa entrega uma protagonista que carrega o peso do mundo, e o próprio julgamento, nas costas. E quem dá vida a essa mulher complexa, intensa e absurdamente humana é a excelente Paula Beer
Paula não interpreta Stella, ela vive, respira e transpira cada cicatriz da personagem. É difícil desgrudar os olhos da tela quando ela está em cena. Seu olhar carrega uma dor silenciosa que nunca escorrega para o melodrama barato. Stella é mãe, é mulher, é filha, é culpada, é vítima, tudo isso ao mesmo tempo. E Paula nos faz acreditar em cada camada, em cada silêncio cheio de significados.
O roteiro tem algumas oscilações, especialmente em alguns diálogos que soam um pouco explicativos demais, mas a direção segura e a atmosfera soturna compensam. O filme sabe quando falar e, mais importante ainda, sabe quando calar. Há uma aposta clara no não-dito, justamente aí que o filme encontra sua força. A trilha sonora sutil, o uso de ambientes fechados e a fotografia que flerta com o claustrofóbico ajudam a criar uma sensação constante de tensão, como se algo estivesse prestes a explodir.
A narrativa não tenta nos empurrar uma resposta pronta sobre quem é Stella, mas sim nos convida a entender o quanto é difícil rotular uma mulher que já foi tantas coisas. E é nesse ponto que o título brilha: vítima e culpada são posições que se embaralham o tempo todo.

A construção da personagem também se beneficia de uma montagem que fragmenta o tempo de maneira inteligente. Não estamos diante de uma narrativa linear e confortável. A confusão temporal reflete o próprio estado emocional de Stella, presa entre memórias, traumas e tentativas frustradas de seguir em frente. O passado invade o presente sem pedir licença, e o filme não suaviza essas transições. Ao contrário: ele as escancara como feridas abertas, que o tempo insiste em não cicatrizar.
Vale destacar também a escolha estética por cores frias e enquadramentos fechados, que reforçam a sensação de aprisionamento. Em vários momentos, Stella parece pequena diante dos espaços ou esmagada pelas paredes, como se o ambiente fosse um espelho do seu interior. E essa escolha visual, que poderia soar repetitiva, é manejada com sutileza. Nada ali é gratuito. Tudo aponta para uma verdade incômoda: às vezes, o maior julgamento não vem dos outros, mas de nós mesmos.
No fim das contas, Stella: Vítima e Culpada é um filme que exige do espectador um olhar atento e um coração aberto. Não é daqueles que se consome de forma rápida e descartável. Ele fica com a gente. E talvez esse seja seu maior trunfo: fazer pensar sem precisar gritar.
Nota: 3/5
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