Uma obra sensível sobre legado e memória, com atuação magistral de Richard Gere.

Oh, Canadá é um daqueles filmes que chegam sem fazer muito barulho, mas que deixam um rastro profundo na gente, como quem sussurra uma grande verdade sobre a vida, a memória e o tempo. Paul Schrader, conhecido por suas histórias sobre homens atormentados e em conflito, entrega aqui uma obra sensível, madura e com um olhar poético sobre o legado que deixamos e as histórias que levamos conosco.
O filme é, acima de tudo, uma meditação sobre a memória. Não a fixa fixa, definitiva, mas a fluida, que se transforma à medida que envelhecemos, que se embaralha entre o que realmente vivemos e o que gostaríamos de ter vivido. Nesse terreno nebuloso, o diretor constrói sua narrativa com muita delicadeza, conduzindo o espectador por fragmentos de lembranças, silêncios e olhares carregados de significado.
É nesse cenário que surge Richard Gere, numa das performances mais intensas e humanas de sua carreira. Aqui, o galã clássico se dissolve completamente, dando lugar a um homem frágil, doente, confrontado pelo peso do passado e pela iminência da morte. Gere está simplesmente magnífico, sua atuação é contida, cheia de pequenas sutilezas, e carrega o filme com uma dignidade silenciosa que emociona sem precisar de grandes discursos. O olhar dele, muitas vezes perdido entre a saudade e o arrependimento, fala mais do que qualquer linha de roteiro poderia expressar.

Ao lado dele, Jacob Elordi também entrega um trabalho sólido, interpretando a versão mais jovem do personagem. A química entre os dois, mesmo que mediada pelo tempo e pela montagem, cria uma unidade narrativa que dá força ao filme.
O tema do legado é tratado com muita sensibilidade. Oh, Canadá não oferece respostas fáceis sobre o que significa deixar algo para trás. Pelo contrário: é um filme que entende que, muitas vezes, o verdadeiro legado é feito de ausências, de relações não resolvidas, de palavras que nunca foram ditas. Schrader nos lembra que, ao final, todos seremos reduzidos às memórias que outros guardarão de nós — e nem sempre essas memórias correspondem à imagem que queríamos deixar.
Visualmente, o filme adota uma estética que busca reforçar essa reflexão: o uso de preto e branco e cor como marcadores de tempo ou de estado emocional. É uma escolha ousada, que poderia ter acrescentado ainda mais à narrativa. No entanto, essa alternância nem sempre fica clara em sua intenção. Há momentos em que o espectador se pergunta se a cor está marcando o presente, o passado, ou uma espécie de estado subjetivo das lembranças. Essa ambiguidade pode ser vista como um convite à interpretação, mas também pode gerar certa confusão e, por vezes, distanciamento emocional.
Ainda assim, a fotografia é belíssima, seja nos tons sóbrios do preto e branco ou nas passagens mais quentes em cores. A direção de Paul Schrader é segura, paciente, e sabe valorizar o silêncio tanto quanto as palavras.
O filme exige entrega do espectador. Não é uma obra para quem busca respostas rápidas ou grandes reviravoltas, mas para quem está disposto a refletir sobre a própria vida, sobre os amores que deixou para trás, sobre os erros que nunca conseguiu reparar. É uma narrativa sobre a finitude, mas também sobre a beleza que existe na tentativa humana, sempre falha, de dar sentido ao que vivemos.
Nota: 5/5
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