Cinema, Crítica de Filme

Entrelinhas | Crítica

O roteiro consegue trazer o espectador para sua trama pesada e dura, com facilidade, e ainda traz as nuances da ditadura, a partir de sua protagonista.

Crédito: Natasha Durski

O longa se passa durante a ditadura militar, mais precisamente no ano de 1970, onde acompanhamos Ana Beatriz Fortes (Gabriela Freire) que é presa no seu primeiro dia de estágio, acusada de ser colaboradora de estudantes subversivos ligados a UNE e ao DCE da Universidade Federal do Paraná.

Em um filme que se passa neste período histórico, geralmente temos um grupo de rebeldes que acompanhamos pela trama principal e seus entrames, mas o roteiro de Guto Pasko, Rafael Monteiro, Tiago Lipka e Sebastian S. Claro prefere algo diferente, focar na protagonista e pouco no seu entorno.

Com isso temos a mesma sensação dela, de não saber o que irá acontecer no momento seguinte, por exemplo, entendemos a acusação quando acabamos de conhecer Ana, não temos nenhum tipo de contexto do que ela fez antes do primeiro dia de trabalho.

Com essa mistura de inocência e culpabilidade, fica dúbia que ela diz a verdade ou mente aos policiais a cada novo interrogatório, e como não temos a percepção dos outros personagens, as próximas cenas também são surpresa ao espectador. 

Há peso e drama em quase todas as cenas, os dias que ela passa no local, há crescimento de atos e elementos que deixam a todos desconfortáveis, e o fato de termos uma mulher como interrogada em nada suaviza as ideias dos policiais em tirar a verdade de Ana.

Crédito: Natasha Durski

Esse bom desenvolvimento de atos também se passa pela grande atuação de Gabriela que possui cenas complicadas, e não há quase pontos de respiro para Ana tentar buscar alguma energia.

Isso também se dá pela agilidade da história, mal percebemos o tempo passar, se não fossem as cenas dos pais de Ana buscando notícias e procurando seu corpo em hospitais e delegacias.

A trama principal prioriza a agressão psicológica do que a física, não tendo aquelas imagens das torturas da ditadura, porém os detalhes que vemos em cenários, figurinos e fotografia são excelentes, além de nos preocuparmos com a protagonista, temos a escuridão e os ambientes que trazem a energia pesada necessária. 

Esse algo no ar, essa sensação de certo e errado na protagonista é tão bem desenvolvido, que ficamos boa parte intrigados de uma possível participação, mesmo com algumas fotos de Ana que são mostradas, colocando ela em alguns eventos de passeata, mas sempre fora das brigas e sem ligá-la a outros presos, sua inocência parece encaminhada.

A cadência do filme aliada com o bom roteiro, te mantém na história de Entrelinhas com facilidade, e como estamos no escuro em boa parte da trama, mal percebemos o tempo passar. E mesmo mostrando apenas um recorte de uma pessoa durante alguns dias na ditadura, o filme é firme nos abusos e afirma como os tempos eram sombrios.

Nota: 4/5

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