Mesmo com uma temática futurista, Mato Seco em Chamas traz um retrato brasileiro atual, aliado a uma ótima fotografia, sobreposição de imagens e contemplação do todo. Confira a crítica completa.

Ao começar a assistir Mato Seco em Chamas se imagina um país distópico, mas ao compreendermos os elementos do longa dirigido por Joana Pimenta e Adirley Queirós, há como notar as semelhanças deste país futurista, com a polaridade política que vivemos na última eleição.
Acompanhamos a história que ocorre na favela do Sol Nascente, na Ceilândia (DF), a principal moeda de troca entre grupos inimigos é o petróleo. Chitara, grande gasolineira da região, tenta fidelizar a clientela junto ao seu poço particular, com a ajuda da irmã. Quando o Brasil se torna mais conservador e ameaça votar na extrema-direita, o posicionamento de Chitara se transforma num ato político.
Mesmo sendo futurista, não há como não reconhecer o Brasil nas paisagens, e no uso de poucas cores para mostrar uma realidade. E aliado a isso, temos um trio feminino (Joana Darc Furtado, Andreia Vieira e Léa Alves) forte, denso que consegue manter o drama, a leve ação e política pelo filme, com facilidade.
Isso também se dá pela união de fatores que a dupla de diretores incorpora a sua trama, o som e imagem dão a força quando os diálogos rápidos são colocados, uma sobreposição que funciona, mesmo em um filme cuja proposta são os temas fortes.

A forma com que vemos a fantasia, a realidade e naturais, é intensa, mas a dupla entende essa intensidade, e quando trazer o espectador para a história do trio, como se cada elemento tivesse a sua hora de ser exagerado, sem perder a forma com que a exploração dos temas ocorre.
O trio feminino é forte, preenchido com camadas que remetem ao país atual, não há como não perceber seus anseios e desejos para elas e aos que as rodeiam. E mesmo sendo um longa contemplativo em boa parte, percebemos as referências ao governo, e como as decisões dele afetam o local.
Mesmo sem ser um filme narrativo, temos elementos que trazem o afeto e unidade ao elenco em tela nos primeiros atos. A narrativa central que é deixada para outra parte do filme (Talvez, um dos motivos da sua duração), muda a natureza do longa, para algo documental e menos fantasioso.

Essa troca é perceptível pela crescência do seu trio protagonista, porém percebe-se que o filme soube ‘preparar o terreno’ para os temas a serem trabalhados e termos a dimensão correta de cada um. E mesmo com um trio forte, há subtramas para cada uma, para causar mais empatia.
E o povo se sente representado em Mato Seco em Chamas, principalmente por aqueles que demandam do poder público para sobreviver, e aqueles que não sentem o apoio, e sim sua mão tentando pegar a sua parte.
O longa tem uma combinação rara de elementos, e até mesmo de gênero. E quando entendemos a proposta, e de cada uma ter seu significado em momentos diferentes do filme, é ótimo. E mesmo com a duração elevada, Mato Seco em Chamas sabe exatamente que história quer contar e como quer mostrá-la.
Nota: 4/5
Contato: naoparecemaseserio@gmail.com
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